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O GPS dentro do nosso cérebro

gps-cerebral01A semana passada uma notícia correu a mídia e as redes sociais. O casal noruegano, May-Britt Moser e Edvard Moser (a direita na foto), que ganhou o prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, juntamente com o seu ex-orientador, John O’Keefe (a esquerda), pesquisador da University College London.

A razão do prêmio foi uma descoberta a qual demonstrou que os ratinhos (e também seres humanos) tem um GPS dentro do cérebro! Esse GPS (“Global Positioning System”) é formado pelas células “grid”, e são elas as responsáveis por nos dar o senso de orientação no ambiente.

O casal May-Britt Moser e Edvard Moser estão em colaboração há 30 anos, e são casados há 28 anos. Se conheceram ainda na faculdade, e começaram a fazer um projeto de pesquisa juntos ainda na graduação. O jovem casal descobriu umas das funções do hipocampo: que ele é especializado na formação da memória espacial. Após o doutorado na Tanzânia, decidiram fazer pós-doc em Londres, com o neurocientista John O’Keefe. Apenas com alguns meses de pesquisa em Londres, os pós-doutorandos receberam uma oferta para trabalhar numa universidade na sua cidade natal na Noruega. Apenas alguns anos depois, e o casal já estava ganhando bastante dinheiro para fazer pesquisa.

Os cientistas continuaram então a estudar o papel dos neurônios na orientação espacial, dando sequência a sua descoberta durante a graduação. Eles lesionaram a região do hipocampo responsável pela orientação espacial, e descobriram que os ratinhos ainda eram capazes de se localizarem no espaço. Com isso, o casal resolvou procurar mais a fundo e encontrou um local acima do hipocampo, chamado córtex entorrinal, o qual os neurônios que eram ativados enquanto o ratinho estava utilizando a sua memória espacial procurando pedacinhos de chocolate. Tais neurônios formam um desenho dentro do cérebro parecido com um favo de mel, com um neurônio ativo em cada canto do hexágono.

Essa descoberta causou reboliço entre vários pesquisadores não só neurocientistas, pois a organização hexagonal é o arranjo que executa com mais êxito a resolução espacial com o mínimo de células possíveis. Isso contribui para economizar energia, tempo e espaço! Além disso, podem existir vários tamanhos de “favos de mel” de acordo com os neurônios que são ativados, e os neurônios estão posicionados de acordo com uma regra matemática precisa dentro do cérebro. Essas células também existem nos seres humanos, e são responsáveis por nos dar o nosso senso de orientação, independente de ser dia ou noite, claro ou escuro (a principal diferença entre essas células e as células que os cientistas estudaram no hipocampo anteriormente). É como ter um mapa espacial dentro da nossa cabeça.

Essa pesquisa abre margens para outros tipos de descobertas, envolvendo doenças neurodegenerativas, por exemplo. No Mal de Alzheimer, sabe-se que a primeira estrutura a ser prejudicada em muitos casos são as células do córtex entorrinal, o que explica então porque os primeiros sintomas da doença são identificados quando a pessoa não consegue achar o caminho de volta pra casa, por exemplo.

Para os falantes da língua inglesa, aqui vão dois vídeos que descrevem a pesquisa do casal.

 


Quer dizer que temos o nosso próprio GPS! Mas então será que aquelas pessoas com pouco senso de direção tem menos neurônios “grids”? Ou será que são menos ativos? Ou fazem menos conexões com os vizinhos? E aí, casal, alguma explicação?

Bem, se isso tem explicação ou não, a ciência irá dizer em breve. Mas o que é impressionante é a história científica e amorosa do casal. Sempre receberam prêmios juntos, pulicaram juntos, dirigem um instituto de pesquisa em neurociência muito renomado e ganharam o Prêmio Nobel (saibam vocês que o prêmio total é de 1.2 milhões de dólares!)! É preciso ter um temperamento bom, muita paciência e ter os mesmos interesses de vida pra dar certo assim. Mas que bela história de cérebro, heim? Digo, digo, que bela história de amor!

 

Fonte:

http://www.nature.com/news/neuroscience-brains-of-norway-1.16079

http://edition.cnn.com/2014/10/06/health/nobel-prize-medicine-physiology/index.html?hpt=hp_t2?sr=fb100614nobel635astory

Hafting T, Fyhn M, Molden S, Moser MB, Moser EI. Microstructure of a spatial map in the entorhinal cortex. Nature, 2005.

 

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