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Estabelecendo conexões no sistema nervoso

Aqui venho tratar de um tema que se chama “sobrevivência neuronal”. Sabe-se que os embriões de vertebrados nascem com uma super quantidade de neurônios, mas que estes neurônios não permanecem todos vivos durante o desenvolvimento. Então, porque nascemos com tantos neurônios se naturalmente eles vão morrer? Eis aí a questão. Não sei responder, e também não sei se existe resposta para essa pergunta, mas o que os seres humanos podem é diminuir a quantidade de neurônios que morrem.

Vamos por partes. Gostaria que os leitores que ainda não sabiam disso que entendam que um neurônio só sobrevive quando consegue atingir o seu alvo, ou seja, a célula com quem deve fazer uma conexão e transmitir uma informação nervosa. Isto porque essa célula ou tecido alvo secreta fatores que são fundamentais para a sobreviência neuronal. O que seria o alvo? Se temos um neurônio motor, por exemplo, o alvo dele é uma célula muscular. Se temos um interneurônio na medula espinal, o alvo dele poderia ser um  motoneurônio, e assim por diante. O nosso sistema nervoso é cheio de conexões. E quando o neurônio não consegue atingir o alvo, ele não sobrevive.

O neurologista Gerald Edelman deu o nome a esse processo de darwinismo neural. As conexões com boa absorção para as informações sensoriais recebidas e que podem convertê-las em ações efetivas permanecem intatas e tornam-se fortes. Aquelas que não o fazem enfraquecem e morrem, num processo que se assemelha à seleção natural. Neurônios que se excitam juntos, permanecem juntos, o que siginifica que quanto mais vezes repetimos as mesmas ações e pensamentos, mais encorajamos a formação de certas conexões e mais fixos no cérebro se tornam os circuitos neurais para essa atividade.

Então ficou fácil pensar agora que nos basta apenas aumentar as chances de um neurônio atingir a sua célula alvo, e aumentar a excitação daquele conjunto de neurônios, assim conseguiremos aumentar o número de neurônios sobreviventes. Mas o que é isso? Como eu faço isso?

Oras, é simples. Quando você está tentando decorar a tabuada, você está estimulando várias vezes um mesmo conjunto de neurônios que transmitem informações um para o outro, e com o passar o tempo essas conexões ficam fortes de tanto “treinar”, de modo que a memória das contas você não esquecerá mais. A mesma coisa acontece quando você tenta andar de bicicleta, pode ser difícil no começo mas depois que as conexões de certos neurônios forem formadas, você terá pleno controle de como andar na bicicleta e não esquecerá mais.

Os neurônios e os circuitos de que eles participam competem com outros neurônios pela sobrevivência, e os que se adaptam melhor ao meio ambiente sobrevivem (darwinismo neural).  O meio ambiente que nos cerca – o que ingerimos e inalamos, o montante e o tipo de luz e som – altera, com efeito, a interligação física das sinapses no cérebro, dotando-nos assim com circuitos mais eficientes e permitindo que cada um de nós desenvolva um cérebro exclusivo, ajustado às nossas necessidades particulares.

Ah, então quer dizer que eu posso adaptar o meu cérebro de acordo com as minhas necessidades? Ele não é um órgão “parado”? Quase isso! O nosso cérebro é bem plástico, ou seja, podemos “modelar” algumas de suas conexões. Mas isso também varia de acordo a nossa faixa etária, e isso é assunto para um próximo post!

Espero que tenham gostado.

Fonte: “Principals of neural science” do Kandel e “O cérebro, um guia para o usuário” de John J. Ratey

 

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  1. Leandro Favarin
    16/03/2011 às 01:04

    Que interessante!!
    Eu tinha conhecimento de que exercitar alguma área levaria a conexões mais fortes, mas nunca pensei sobre a não utilização deles e, por consequência, a eliminação do mesmo. O termo “Darwinismo neural” é bem direto, gostei.

    PS: Suzi, você está escrevendo cada vez melhor e instigando cada vez mais a minha curiosidade neste assunto. Espero não ser o único. Parabéns e continue com esse blog espetacular!

  2. 19/03/2011 às 10:33

    A maravilha do cérebro, quer dizer, umas das,é a plasticidade cerebral, não me recordo infelizmente da fonte, mas lembro de ter lido que o aumento da idade já não é considerado tão drástico no que tange à capacidade cognitiva, ou seja, podemos aprender e formar novas conexões etc…precisamos pesquisar isso!

    • 19/03/2011 às 16:44

      Eu acho que o ser humano não conhece nem metade das coisas que podemos fazer com nosso cérebro! =)

  3. Laura Furtado Loubet Fialho
    20/08/2013 às 11:57

    Eu sou Laura, tenho 31 anos , tive um tumor aos 3 anos, fiz 3 cirurgias, várias radiografias, e em consequência do tumor fiquei epletica , da minha infância e ainda sou. Tomo remédios fortíssimos, Trileptal, Sabril, Keppra, RIVOTRIL AO DORMIR E ACORDAR, mas vivo bem com minhas limitações, sou casada, trabalhava em uma escola mas minha mae quis que eu parasse, agora sou do lar, por enquanto, não tenho filhos , pois não posso engravidar por causa dos remédios, mas queremos adotar, meu marido tem um problema na coluna e ele anda de muleta, mas nos temos saúde isso é o que i mporta, ele teve um problema na medula, na vertebra, e consequentemente ele manca um pouco mas somos muito felizes.

    • 24/09/2013 às 23:50

      Olá Laura, isso mesmo! A vida é praticamente normal. Meus parabéns por ter se recuperado e conseguir viver bem a sua vida. Isso depende muito de como você leva as dificuldades que encontra na vida, o que não depende de doenças, mas sim da nossa motivação interior pela vida. Vocês são um exemplo a serem seguidos! Muito obrigada pela leitura.
      um grande abraço

  4. Laura Furtado Loubet Fialho
    20/08/2013 às 12:00

    TENHO EPLEPSIA GRAU 2, ACHO QUE TENHO CHANCES DE ME CURAR UM DIA, NAO SEI, HOJE EM DIA A TECNOLOGIA E MUITO AVANÇADA, MAS TEM QUE ACREDITAR TBM.

    • 24/09/2013 às 23:51

      Isso, precisa acreditar e correr atrás dos tratamentos necessários.

      um abraço

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